quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

A vitória do Zacarias, só com uma mão



Nos últimos 30 anos, a Espanha tem sido dos países com mais campeões do mundo de motociclismo. Grandes pilotos como Angel Nieto, Jorge Martinez, Alex Crivillé, Dani Pedrosa e mais recentemente Jorge Lorenzo fazem com que o país vizinho, a par de Itália, Reino Unido e Estados Unidos, seja hoje em dia um dos quatro países do mundo com mais "champs". Muito antes deles, porém, a terra de Cervantes já tinha grandes ases nestas artes e Zacarias Mateos, que correu nos anos 20, terá sido um deles. Natural de Zamora, era especialista em provas de longa duração, foi campeão espanhol em várias classes ao longo da década e ainda conseguiu, em 1923, bater o recorde do mundo do quilómetro lançado com uma Doulgas de 500cc. A proeza pela qual ficou mais conhecido, porém, terá sido a vitória que conseguiu no Grande Prémio de Tarragona em 1922, com um braço só. Disputado num circuito de 30,3 kms de extensão que passava pelo centro de Tarragona e outras localidades vizinhas, a prova tinha um total de sete voltas, ou 210 quilómetros, e contava com 32 participantes. Ao fim da terceira volta, Zacarias, que seguia em primeiro lugar, caiu com a sua Harley V Twin de 1000cc e desfez todo o lado esquerdo do guiador. A manete da embraiagem também ficou desfeita mas o cabo ficou preso à mesa da direção. Perante um cenário destes, o mais natural seria desistir, mas Zacarias, após olhar por uns segundos para a moto, montou-se nela e decidiu continuar.


Ainda lhe faltavam 120 quilómetros e dado o sistema de mudanças de mão da Harley, cada vez que tivesse que mudar de mudanças tinha que tirar a mão "boa" do guiador para acionar o selector, e segurar a moto com a esquerda no lado direito. Só o chegar ao fim da prova nestas condições já seria um feito mas Zacarias foi mais longe pois, mesmo assim, conseguiu ganhar a prova. Com 15 minutos de avanço em relação ao segundo classificado. Pena naquela altura não haver ainda televisão e transmissão das provas de motociclismo em directos. Hoje deliciaríamonos a ver e rever provas como esta.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

A mais cara de sempre

Se é dos 99% dos entusiastas de motos antigas que pensa que as "senhoras" mais caras que o dinheiro pode comprar são as Brough e as Vincent, desengane-se. A mais cara de todas é esta Cyclone norte-americana de 1917 com um motor bicilíndrico de 998cc em "V" a quatro tempos, com válvulas à cabeça, o que faz dela uma das primeiras motos no mundo com este tipo de válvulas. Produzida numa mini-série de doze exemplares, a moto foi concebida de raiz para bater recordes do mundo, sendo feita com os materiais mais leves que havia na altura o que fazia com que o seu preço fossem uns impressionantes 350 dólares, uma pequena fortuna para a época. Com 35cv de potência (e sem travões!), a moto tornou-se famosa ao ganhar uma competição no mesmo ano de 1917 num circuito oval com uma milha (1,6kms) de comprimento cujo dono ofereceu um prémio de 1000 dólares para o veículo, terrestre ou aéreo, que fizesse o percurso da pista em menos tempo. Concorreram vários carros de renome da época, um avião e duas motos, esta Cyclone e uma Excelsior, sendo que o vencedor foi a Cyclone. A moto foi vendida em 2008, num leilão em Nova Iorque, por 552.000 dólares (perto de 425.000 euros). A Brough e a Vincent mais caras até hoje foram vendidas, também em leilão, pelo equivalente a 250.000 euros. Nada mau, mas a "velhinha" da Cyclone ainda está muito à frente.

domingo, 18 de dezembro de 2011

As G50 do George

Que a Norton Manx foi uma grande máquina desportiva do final dos anos 50 e começo dos anos 60, isso a gente sabia. Agora que ela teve uma grande rival em Inglaterra, isso é que, pelo menos para mim, era chinês. Mas teve. Foi a Matchless G50 a qual não era tão rápida mas era igualmente muito bonita, e ainda tinha a vantagem de ser mais leve e curvar, ao que parece, bastante melhor que a Manx. Até aí maravilhoso. O que, no entanto, é ainda mais surpreendente, é que ao contrário da Norton Manx que deixou de se produzir ainda na década de 60, a G50 continua a ser produzida até aos dias de hoje. Já não pela Matchless que, infelizmente foi à vida, mas por um mecânico inglês, George Beale, que as faz com algumas modernices como quadro em liga leve, forqueta da Ceriani e caixa de seis velocidades em magnésio e que, graças a um excelente trabalho de marketing na promoção da moto dos dois lados do Atlântico junto de corredores de clássicas, tem uma lista de espera de dois anos para a dita. Crise, qual crise?

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Os gajos querem-no de volta

Os holandeses são boa gente, é sabido. Conseguem conciliar trabalho com lazer de uma forma quase científica e esse "mix" nota-se um pouco em tudo, até nas motos antigas. Têm uma verdadeira paixão por elas e, a par do Reino Unido, Alemanha e Itália, são um dos quatro países europeus onde o hobby das "senhoras" tem mais seguidores. Vai daí que parece não lhes ter caído muito bem no goto o terem perdido para Portugal o recorde do mundo do maior encontro de motorizadas antigas, recorde esse que tinham desde 2009 com 1237 motorizadas. Como gente, muito, civilizada que são, aceitaram a perda, e até deram os parabéns a Portugal, mas não ficaram quietos. Segundo a revista "Bromfiets", a principal revista holandesa de motos antigas, vai realizar-se no final da primavera no sul da Holanda um encontro que vai reunir participantes holandeses e belgas para tentar trazer o recorde de volta para o país. O objectivo seria juntar 2500 motorizadas antigas, mais 190 que o conseguido em Junho em Fátima, embora os organizadores considerem que o objecitvo não é fácil e daí o terem pedido ajuda aos vizinhos belgas. Quanto a nós, portugas, como também somos boa gente, só podemos desejar-lhes boa sorte. E das duas uma: se não conseguirem chega ao recorde português, é uma pena, mas se chegarem, que consigamos nós em Junho batê-los outra vez. Seria um Portugal 2, Holanda 0!

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

A Faka

Fabricada na Alemanha entre 1953 e 57, a Faka é uma das scooters mais raras, e caras do mundo. A moto baseava-se numa outra scooter alemã, a Walba, fabricada entre 1947 e 1951 cujo fabricante fechou as portas nesse ano. O desenho da moto com o seu "look" de turbina de avião já era muito similar ao da Faka e a motorização utilizada, o motor Jlo a dois tempos de 150 e 200cc, também. Infelizmente a moto era muito cara e como se isso não bastasse, as revistas de motos alemãs da época apontavam-lhe várias falhas o que levou a que ela nunca conseguisse atingir um nível de produção minimamente rentável. Não se sabe ao certo quantas Fakas terão chegado aos dias de hoje mas é possível que não cheguem a 50, a maior parte delas na Alemanha e Estados Unidos. É sabido que os motores Jlo de 150 e 200cc nunca foram um espectáculo mas mesmo assim é uma pena uma máquina tão bonita ser tão rara. E mais pena ainda é cá em Portugal não haver nenhuma. Mas, quem sabe um dia "aterra" aí uma. A esperança é a última que morre, não é?

terça-feira, 29 de novembro de 2011

E o William descobriu a Super Sport

William, o homem da direita sentado na Zundapp Super Sport, não é, ou pelo menos não era, um apaixonado de motos sejam elas modernas ou clássicas. É um futebolista brasileiro que teve em 2010/11 a sua primeira temporada na Europa, em Itália, e que agora, há poucas semanas atrás, foi passar férias ao seu Brasil. O seu pai, porém, é português, da Póvoa do Varzim, e antes de partir para o outro lado do mar, William decidiu vir a Portugal visitar a família à Póvoa, ou melhor falando à aldeia de Navais, perto da Póvoa. Acontece que o seu primo Bruno é "maluquinho" por clássicas e não descansou enquanto não o põs a andar de moto. E como o Bruno é boa gente, disponibilizou-se mesmo para que o primo William sentisse, de carne e osso, a maravilha que é uma Super Sport. Até aí tudo bem. O que já não estava previsto é que o William se "apaixonasse" pela máquina. Acontece que se apaixonou e embora não a tenha levado no avião consigo, parece que não descansou enquanto não juntou tudo o que é informação sobre a moto, para levar consigo algumas recordações desta sua paixão luso-alemã. E como em Navais ainda há umas quantas Zundapps - entre 30 e 40, ao que dizem os locais que gostam de motos - vai-se a ver e um dia destes ainda aparece aí um pedido do William para a família de cá lhe comprar uma Super Sport e a mandar para Itália. Que dava nas vistas, dava.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Naquele tempo

Parece uma falácia mas no mundo do motociclismo de competição cada década tem tido o seu, ou os seus heróis. O dos anos 50 foi o inglês Geoff Duke com quatro títulos de campeão do mundo na classe raínha da altura, as 500. Depois nos anos sessenta foi primeiro Mike Hailwood (também com quatro títulos)e depois Giacomo Agostini (com oito, os últimos já na década de 70). Nas duas décadas seguintes, um grupo de cinco norte-americanos (primeiro Kenny Roberts e depois Freddie Spencer, Eddy Lawson, Kevin Schwantz e Wayne Rainey) conseguiu entre si 13 títulos. E mais recentemente tivemos o não menos grande Valentino Rossi, com os seus sete títulos. Antes de todos eles, porém, houve um outro grande senhor com muitas vitórias em pista. Foi o irlandês Stanley Woods cujo palmarés na década de 20 abarca 29 vitórias em grandes prémios e 10 no TT da Ilha de Mann, a principal competição de pista de motos na altura. Nunca, nem antes nem depois, nenhum piloto conseguiu nem igualar nem acercar-se perto deste fantástico palmarés. Embora a sua grande paixão fossem as provas de pista, Stanley também gostava de participar em scrambles (as provas que antecederam o motocross e que na altura já eram famosas sobretudo no Reino Unido), e provas de trial. O que não se sabia, e que esta foto recentemente vinda a público veio documentar, é que o "senhor" como era conhecido, entrava nestas provas vestido a rigor, de gravata e tudo. Normalmente, tanto nestas provas como nas provas de pista, os pilotos equipavam-se já com combinações de couro, nas pistas corridas e nas provas de fora de estrada de duas peças. A foto, inicialmente publicada no blog inglês Nortonvintage, mostra Stanley numa Norton M18 cuja únicas alterações seriam um travão de 8 polegadas de tambor na roda da frente, a panela de escape alterada por causa das passagens de ribeiros, e o reposicionamento do magneto.